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Sementes crioulas: escolher, colher, guardar e trocar · 7 capítulos

Sementes que passam de mão em mão

Aprenda a guardar sementes crioulas: polinização, plantas-mãe, fermentação, a regra do 55, teste de germinação e trocas

Sobre o guia

Um curso para quem quer guardar as próprias sementes: a diferença entre crioulas, híbridas e transgênicas e o que diz a Lei de Sementes, autógamas e alógamas e como evitar cruzamentos, a escolha das plantas-mãe, a extração e a fermentação das sementes de tomate, a regra do 55 e o teste de germinação, as histórias do milho que voltou para os Krahô e das Sementes da Paixão, e um plano para começar a ser guardião de sementes.

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O que é semente crioula

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Toda roça começa numa semente. Por milhares de anos, quem plantava guardava as melhores sementes da colheita para o ano seguinte, trocava com os vizinhos e, assim, criou as variedades que comemos até hoje. No curso Plantar regenerando, você viu que essa diversidade está se perdendo. Este curso é sobre o outro lado: como guardar sementes na prática, do quintal à casa de sementes da comunidade.

O que é uma semente crioula

Semente crioula, ou variedade local, é aquela que foi selecionada e mantida por agricultores, famílias e povos tradicionais ao longo de gerações, adaptada ao clima, ao solo e ao gosto de cada lugar. Ela é de polinização aberta: quando você planta, colhe e replanta, a filha sai parecida com a mãe. Por isso pode ser guardada ano após ano.

A semente híbrida, chamada F1, é diferente. Ela vem do cruzamento entre duas linhagens feito pela empresa de sementes, e as plantas da primeira geração saem vigorosas e uniformes. Mas, se você guardar a semente dessas plantas, a geração seguinte não repete a mãe: sai desuniforme e produz menos. Quem planta híbrido precisa comprar semente todo ano. Já a semente transgênica recebeu um gene de outra espécie em laboratório, e o uso dela tem regras de propriedade intelectual.

Três cartões. Crioula: variedade local, de polinização aberta; a filha repete a mãe. Híbrida F1: cruzamento feito pela empresa; a filha não repete a mãe. Transgênica: com gene de outra espécie e dono; guardar tem restrições.
O que acontece quando você replanta a semente colhida.

A lei protege quem guarda

A Lei de Sementes brasileira, a Lei 10.711, de 2003, reconheceu as cultivares locais, tradicionais ou crioulas. Segundo a Embrapa Hortaliças, a lei assegurou o direito do agricultor de usar sementes próprias e dispensou do registro nacional de sementes e mudas os agricultores familiares, os assentados da reforma agrária e os indígenas que multipliquem sementes para distribuição, troca ou venda entre si, além das organizações que distribuem sementes aos seus associados.

A Embrapa também lembra que, embora a produção de sementes híbridas exija alta tecnologia, produzir sementes de variedades crioulas e de polinização aberta é uma possibilidade concreta para os agricultores familiares. Ou seja: guardar semente não é coisa só de especialista.

Por que guardar

Quem guarda semente ganha autonomia: não depende de comprar todo ano. Ganha adaptação: a cada ciclo, as sementes ficam mais acostumadas ao seu lugar. E ajuda a manter viva a diversidade, que é a melhor proteção contra a seca, as pragas e as mudanças do clima. Uma lavoura com muitas variedades diferentes raramente perde tudo de uma vez.

Vídeo: Milho crioulo: como obter sementes de qualidade · Sítio recanto das Cabreúvas · 20 min

Você sabia?

Muitas variedades crioulas têm nomes que contam a sua história: milho cateto, feijão-de-corda, abóbora-de-pescoço, fava-orelha-de-vó. Perguntar o nome e a origem de uma semente é o primeiro passo para guardá-la.

Na prática

Descubra as sementes à sua volta:

  1. Leia o pacote das sementes que você tem em casa e veja se alguma é híbrida ou F1.
  2. Pergunte a pessoas mais velhas da família ou da vizinhança se guardam alguma semente.
  3. Anote o nome, a origem e a história de cada semente que encontrar.

Fontes

  1. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.

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O que acontece ao replantar a semente de um híbrido F1?

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Quem cruza com quem

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Para guardar uma semente que repita a mãe, é preciso entender como a planta faz semente. Tudo começa na flor, com a polinização: o pólen precisa chegar à parte feminina da flor. Algumas plantas fazem isso sozinhas; outras dependem de abelhas, outros insetos ou do vento, e aí podem cruzar com a variedade do vizinho.

Autógamas e alógamas

A Embrapa Hortaliças separa as hortaliças em dois grupos. As autógamas se polinizam dentro da própria flor: alface, ervilha, feijão-vagem, grão-de-bico, lentilha, jiló, tomate, pimenta, pimentão, berinjela e quiabo. Algumas delas, marcadas na tabela da Embrapa, podem cruzar um pouco. As alógamas cruzam entre plantas e dependem de agentes polinizadores, como insetos e vento: abóboras, pepino, melancia, melão, milho-doce, cebola, cenoura, coentro, couve-flor, brócolis e repolho.

Dois quadros. Autógamas, a flor se poliniza sozinha: alface, feijão-vagem e ervilha, tomate, pimenta e pimentão, berinjela e jiló, quiabo; algumas podem cruzar um pouco. Alógamas, precisam de abelha ou vento: abóboras e pepino, melancia e melão, milho-doce, cebola e cenoura, couve, repolho e brócolis, coentro.
Segundo a Circular Técnica 35 da Embrapa Hortaliças.

Para quem está começando, as autógamas são as mais fáceis: dá para guardar semente de dois tipos de feijão ou de tomate lado a lado com pouco risco de mistura. As alógamas pedem mais cuidado, porque uma abobrinha pode cruzar com a abóbora do vizinho, e as sementes desse cruzamento dão frutos que não são nem uma coisa nem outra.

Isolar no espaço ou no tempo

Para evitar os cruzamentos indesejados, usa-se o isolamento, que pode ser no espaço ou no tempo. No tempo, a Embrapa explica que dá para produzir sementes de duas cultivares da mesma espécie na mesma propriedade se uma for semeada dois a três meses depois da outra, para que não floresçam juntas. No espaço, os campos comerciais de alógamas ficam separados por 2 a 3 quilômetros, distância impossível no quintal. Por isso, em casa, o mais simples é cultivar uma variedade de cada espécie alógama por vez. Outra técnica é ensacar algumas flores com um saquinho de tecido fino e polinizá-las à mão.

Cinco cuidados para evitar cruzamentos: uma variedade de cada espécie por vez; separar no tempo, semeando a segunda variedade dois a três meses depois; separar no espaço, já que nas alógamas os campos comerciais ficam a quilômetros; ensacar a flor com saquinho de tecido fino; muitas plantas nas alógamas, colhendo de pelo menos 50 a 100 plantas.
O isolamento pode ser no espaço ou no tempo.

Muitas plantas, muita diversidade

Outro cuidado vale para as alógamas: não guardar semente de poucas plantas. A Embrapa recomenda selecionar e colher sementes de no mínimo 50 a 100 plantas nas espécies alógamas, porque um número muito pequeno de plantas pode gerar uma seleção negativa. Com poucas mães, a variedade vai perdendo a diversidade interna e enfraquece com o tempo. No milho crioulo, por exemplo, quem guarda semente costuma escolher espigas de muitas plantas diferentes da roça.

Você sabia?

A Embrapa conta que, nas espécies alógamas, às vezes é preciso instalar colmeias de abelhas nos campos de sementes na época da florada: sem polinização, os frutos saem fracos e produzem menos sementes.

Na prática

Planeje a sua primeira semente:

  1. Escolha uma autógama que você já planta, como feijão, tomate ou alface.
  2. Confira se a variedade não é híbrida, olhando o pacote ou perguntando a quem te deu.
  3. Se for plantar abóbora ou milho, fique com uma variedade só nesta safra.

Fontes

  1. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.

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Qual destas plantas é alógama, que cruza com as vizinhas?

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Escolher as plantas-mãe

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Guardar semente é também escolher. Cada vez que você separa as sementes de uma planta, está decidindo como será a variedade no futuro. Foi assim, escolhendo ano após ano, que os agricultores criaram a diversidade de feijões, milhos e abóboras que existe hoje. Neste capítulo, como escolher as plantas-mãe e quando colher.

Escolher na roça, não no paiol

A escolha começa com as plantas ainda no canteiro. A Embrapa Hortaliças recomenda selecionar as plantas e os frutos mais uniformes e sadios para retirar as sementes. Observe a horta durante o ciclo e marque, com uma fitinha ou uma estaca, as plantas que se destacam: sadias, produtivas, resistentes à seca ou às pragas do seu lugar, e parecidas com a variedade que você quer manter.

Uma fileira de plantas de tamanhos diferentes. Três delas, mais altas, sadias e com mais frutos, têm uma plaquinha escrita mãe. Nota: escolha plantas sadias, produtivas e parecidas com a variedade; nunca só a primeira que dá fruto.
Marque as melhores plantas antes da colheita.

Um erro comum é guardar a semente da primeira planta que deu fruto ou da que sobrou no fim da colheita. A primeira pode ser precoce demais; a última, a mais fraca. Outro erro é escolher só pelo tamanho: um feijão enorme numa planta doente não é boa mãe. Pense no que importa para você: sabor, produção, ciclo, resistência.

Deixar amadurecer

A semente precisa de tempo para ficar pronta, muitas vezes bem depois do ponto de comer. O feijão-vagem para semente fica no pé até a vagem secar e mudar de cor. O pepino e a abobrinha ficam no pé até ficarem grandes, amarelos e duros. O tomate e o pimentão devem estar bem maduros. A alface precisa florescer e formar plumas, como as do dente-de-leão. E as plantas das sementes ficam mais tempo no canteiro, por isso, como lembra a Embrapa, precisam de boa adubação e de solo bem cuidado.

A colheita deve ser feita em dias secos e ensolarados, o que diminui a necessidade de secagem. Para os frutos carnosos, como pepino, abóbora, melancia, tomate e berinjela, a Embrapa recomenda na maioria das espécies um repouso de 7 a 20 dias depois da colheita, antes de tirar as sementes: nesse tempo, elas terminam de amadurecer dentro do fruto.

Vídeo: Banco comunitário de sementes crioulas: Sementes da Paixão, Queimadas (PB) · O paraíso é aqui · 5 min

O caderno de sementes

Quem guarda sementes anota. Num caderno, registre a variedade, de onde veio, quando foi plantada, como se comportou, quais plantas foram escolhidas e por quê. Com os anos, esse caderno vira a história da variedade no seu lugar, e ajuda muito quando você for trocar sementes com outras pessoas.

Você sabia?

Segundo a Embrapa, não é aconselhável produzir sementes num lugar onde antes se plantou uma espécie da mesma família: além de cruzamentos indesejados, certas doenças ficam no solo e nos restos da cultura por vários anos.

Na prática

Escolha as suas plantas-mãe:

  1. Marque com fitinhas as três melhores plantas da espécie que você vai guardar.
  2. Deixe os frutos dessas plantas no pé até passarem do ponto de comer.
  3. Comece o caderno de sementes com a primeira página dessa variedade.

Fontes

  1. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.

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Que plantas escolher para guardar semente?

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Colher, limpar e secar

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Colhidos os frutos, é hora de tirar as sementes. O jeito muda conforme o tipo de fruto: seco, como a vagem do feijão, ou carnoso, como o tomate. Neste capítulo, como extrair, limpar e secar cada um, incluindo a fermentação, o segredo das sementes de tomate.

Frutos secos

Feijão, ervilha, alface, couve, repolho, cebola e cenoura formam sementes em frutos que secam na planta. A regra é deixá-los secar bem no pé e colher em dias secos. As vagens e os cachos são batidos dentro de um saco ou sobre uma lona, e depois a palha é separada das sementes com peneira e vento, abanando sobre uma bacia. Como lembra a Embrapa Hortaliças, colher em dias secos e ensolarados diminui a necessidade de secagem.

Tabela de como tirar as sementes. Frutos secos, como feijão, alface e couve: colher secos, bater e peneirar. Carnosos sem fermentar, como abóbora, pimentão e berinjela: tirar, lavar e secar. Carnosos fermentando, como tomate, pepino e melão: 1 a 2 dias com o suco, mexendo. Antes de tudo, nos frutos carnosos: repouso de 7 a 20 dias após colher. Nota: depois da fermentação, lave em água corrente e seque na sombra.
Cada tipo de fruto pede um jeito de tirar a semente.

Frutos carnosos

Abóbora, pepino, melancia, melão, tomate, pimentão e berinjela têm frutos carnosos, e as sementes precisam ser tiradas da polpa. Segundo a Embrapa, as sementes de berinjela, pimentão e abóboras podem ser extraídas com ajuda de água, mas não precisam de fermentação: basta separar, lavar e secar. Já as de melão, melancia, pepino e tomate têm uma mucilagem, uma gelatina em volta, que gruda as sementes e pode servir de alimento para fungos e bactérias. Ela precisa ser retirada.

A fermentação do tomate

O método mais simples é a fermentação natural. A Embrapa ensina: coloque as sementes com o próprio suco num pote ou balde, sem acrescentar água, por um dia nas épocas quentes ou dois dias nas frias, mexendo a mistura duas a três vezes por dia. Forma-se uma espuma e a gelatina se solta. Não passe do ponto: em fermentações muito longas, as sementes podem germinar ou perder o vigor. Depois, lave em água corrente, numa peneira, até ficarem limpas.

Linha do tempo das sementes de tomate. Dia 0, espremer: sementes com o suco num pote, sem pôr água. Dias 1 a 2, fermentar: mexer duas a três vezes por dia, forma uma espuma. Depois, lavar em água corrente, na peneira. Em uma semana, secar espalhadas na sombra, sobre prato ou tela. Nota: fermentar demais faz as sementes germinarem ou perderem o vigor; 1 dia no calor, 2 no frio.
O método da Embrapa Hortaliças para tirar a mucilagem.
Vídeo: Como secar semente de tomate da maneira correta · Siloe Oliveira · 4 min

Secar na sombra

Semente úmida estraga. Depois de limpas, espalhe as sementes numa camada fina sobre prato, peneira, tela ou papel, num lugar arejado e na sombra, mexendo de vez em quando. Sol forte e calor podem matar o embrião. As sementes estão secas quando ficam duras e, nas maiores, quebram em vez de amassar quando você aperta com a unha. Só então vão para o pote.

Você sabia?

A Embrapa conta que até equipamentos caseiros ajudam a extrair sementes: um moedor de carne, por exemplo, é usado para tirar as sementes de pimentas ardidas.

Na prática

Tire suas primeiras sementes:

  1. Escolha um tomate bem maduro de uma planta-mãe e esprema as sementes num copo.
  2. Deixe fermentar um ou dois dias, mexendo, e lave na peneira.
  3. Seque na sombra por uma semana e anote tudo no caderno de sementes.

Fontes

  1. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.

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Por quanto tempo fermentar as sementes de tomate?

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Guardar e testar

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Uma semente bem colhida e mal guardada não nasce. Umidade, calor e caruncho são os grandes inimigos do paiol e da prateleira. Neste capítulo, como guardar as sementes para que durem, e como saber se elas ainda estão vivas.

A regra do 55

A Embrapa Hortaliças dá uma regra fácil de lembrar: as condições de armazenamento da maioria das espécies são adequadas quando a soma da temperatura, em graus Celsius, com a umidade relativa do ar, em porcentagem, fica abaixo de 55. O exemplo da Embrapa, 10 graus e 45% de umidade, fica bem no limite. Nessas condições, segundo a Embrapa, as sementes podem durar de três a dez anos ou mais, conforme a espécie. Numa cozinha quente e úmida, de 30 graus e 70% de umidade, elas envelhecem depressa.

Três exemplos da regra do 55: geladeira com pote fechado, 8 graus mais 40% dá 48, bom; armário fresco e seco, 22 graus mais 30% dá 52, bom; cozinha quente e úmida, 30 graus mais 70% dá 100, ruim. Nota: abaixo de 55, a longevidade varia de três a dez anos ou mais.
Some a temperatura e a umidade: abaixo de 55, as sementes duram anos.

Por isso a Embrapa sugere a parte de baixo da geladeira para guardar sementes, sempre dentro de embalagens bem fechadas. Na falta de envelopes aluminizados ou latas, garrafas PET, vidros e latas podem ser usados, desde que limpos e secos, e as sementes também precisam estar bem secas antes de fechar.

A garrafa PET dos guardiões

A garrafa PET virou o pote dos guardiões de sementes. Numa pesquisa da Embrapa Agrobiologia em assentamentos do norte do Rio de Janeiro, 84% dos agricultores guardiões entrevistados guardavam as sementes em garrafas PET, além de vidros e sacos no paiol. Eles também usavam conservantes tradicionais, como cinza, terra de formigueiro e folhas de eucalipto. Contra o caruncho, muita gente deixa as sementes secas alguns dias no congelador antes de guardar, o que mata ovos e larvas.

Cinco cuidados para guardar sementes: bem secas antes de fechar; pote limpo e bem vedado, como garrafa PET, vidro ou lata; proteção contra caruncho, com cinza, folhas secas ou uns dias no congelador; lugar fresco e escuro, como a parte de baixo da geladeira; etiqueta com espécie, variedade, data, origem e germinação.
Seca, fechada, fresca, escura e com nome.
Vídeo: Como armazenar sementes em garrafas PET · Aprenda Mais · 6 min

O teste de germinação

Antes de plantar ou trocar, vale saber quantas sementes ainda nascem. A Embrapa ensina um teste simples: semeie as sementes entre duas folhas de papel toalha umedecidas, sem encharcar, ou numa caixa de areia lavada. Depois de 7 a 14 dias, conforme a espécie e a temperatura, conte as plantinhas. Se 8 de 10 germinaram, a germinação é de 80%. Anote o resultado na etiqueta. Se a germinação estiver caindo, é hora de plantar e renovar o estoque.

Dez sementes sobre papel toalha, oito delas com raiz e broto. Notas: entre duas folhas de papel toalha úmidas, sem encharcar; espere de 7 a 14 dias, em dias frios demora mais; conte as que nasceram, 8 de 10 nasceram é 80% de germinação.
Descubra quantas sementes ainda nascem.

Você sabia?

As embalagens de semente, segundo a Embrapa, devem trazer espécie, cultivar e data, além de informações como germinação e pureza. Nas casas de sementes, cada pote tem também o nome de quem guardou.

Na prática

Organize o seu estoque:

  1. Junte as sementes que você tem em potes bem fechados e com etiqueta.
  2. Faça o teste de germinação com dez sementes da mais antiga.
  3. Escolha um lugar fresco e escuro, ou a parte de baixo da geladeira.

Fontes

  1. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.
  2. Garofolo, A. C.; Risso, I. A.; Barbosa, D. Conservação on farm de variedades crioulas em bancos familiares localizados em assentamentos rurais no estado do Rio de Janeiro. Embrapa Agrobiologia (Cadernos de Agroecologia), 2018.

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Pela regra do 55, qual destas condições é boa para guardar sementes?

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Sementes que voltam para casa

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Guardar sementes nunca foi coisa de uma pessoa só. Elas passam de mão em mão, entre vizinhos, parentes e comunidades. Neste capítulo, duas histórias brasileiras que mostram a força dessa rede: o milho que voltou para o povo Krahô e as Sementes da Paixão da Paraíba.

O milho que voltou para os Krahô

Em 1994, o povo indígena Krahô, que vive no nordeste do Tocantins, foi a Brasília buscar nos bancos de germoplasma da Embrapa as variedades antigas de milho que tinham desaparecido de suas aldeias. A história está num caderno da Articulação Nacional de Agroecologia com a Embrapa, a Funai e a União das Aldeias Krahô. Entre 1978 e 1979, expedições tinham coletado 427 amostras de milho em comunidades indígenas e tradicionais, guardadas em câmaras frias. Oscar Há'porô, primeiro coordenador da Kapéy, entrou na câmara fria a 20 graus negativos e reconheceu, entre amostras coletadas com o povo Xavante, o pohumpéy, o milho bom dos Krahô.

Linha do tempo. 1978 e 1979, coleta: expedições levam 427 amostras de milho para o frio. Depois, perda: o milho pohumpéy some das aldeias Krahô. 1994, resgate: caciques vão a Brasília e acham o milho na câmara fria. 1995, devolução: os Krahô levam sementes de volta para o banco.
Do banco de germoplasma de volta às roças do Tocantins.

As sementes voltaram para as aldeias, mas, depois de mais de vinte anos congeladas, demoraram alguns anos para se readaptar e repovoar as roças. E em 1995, logo depois da primeira colheita, os caciques voltaram a Brasília levando sementes multiplicadas nas aldeias, para que o banco não ficasse com tão pouco. A partir daí nasceu uma parceria que junta a conservação no banco e a conservação nas roças, onde as sementes continuam vivas e evoluindo.

Para os Krahô, as sementes têm história sagrada. Contam que Catxêkwy, uma estrela que desceu à terra e virou mulher, deu ao povo as sementes de milho, mandioca, batata-doce e inhame, e ensinou a agricultura. Ela se escondia dentro de uma cabaça, a mesma em que os Krahô guardam suas sementes até hoje.

As Sementes da Paixão

Como você viu no curso Plantar regenerando, na Paraíba os agricultores chamam suas variedades locais de sementes da paixão. Elas são guardadas em bancos comunitários de sementes, onde as famílias pegam emprestado na hora de plantar e devolvem depois da colheita, com um pouco a mais. Uma pesquisa de três anos feita pela Embrapa Tabuleiros Costeiros com a Articulação do Semiárido Paraibano comparou cerca de 20 variedades crioulas de milho com três variedades distribuídas por programas públicos. Segundo a AS-PTA, em todos os campos de teste as sementes da paixão tiveram desempenho produtivo equivalente ou superior ao das variedades do governo.

Vídeo: Sementes do Semiárido: a casa de sementes que nasceu graças a um intercâmbio · CEDASB · 7 min

Banco no frio e semente na roça

As duas histórias mostram que os bancos de germoplasma e as casas de sementes se completam. O banco guarda no frio, por décadas, uma cópia de segurança. A casa de sementes e a roça mantêm a semente viva, plantada, adaptando-se ao clima de cada ano. Sem as duas, a diversidade se perde.

Você sabia?

Segundo o caderno sobre os Krahô, de 2014, a câmara fria onde Há'porô entrou guarda mais de 200 mil amostras de sementes de mais de 700 espécies, a 20 graus negativos.

Na prática

Procure a rede de sementes perto de você:

  1. Pesquise se existe uma casa ou banco de sementes na sua região, em sindicatos, associações ou grupos de agroecologia.
  2. Descubra quando acontece a próxima feira de trocas de sementes.
  3. Separe uma semente sua para levar e trocar.

Fontes

  1. Londres, F.; Dias, T. et al. (ANA, Embrapa, Funai, Kapéy). As sementes tradicionais dos Krahô: uma experiência de integração das estratégias on farm e ex situ de conservação de recursos genéticos. Articulação Nacional de Agroecologia / Embrapa, 2014.
  2. AS-PTA. Sementes da Paixão: legitimidade científica e reconhecimento histórico. aspta.org.br, 2012.

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O que os Krahô foram buscar em Brasília em 1994?

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Ser guardião de sementes

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Agora você sabe escolher, colher, limpar, secar, guardar e testar sementes. Para fechar o curso, um plano para começar a ser guardião ou guardiã de sementes, mesmo num quintal pequeno, e os cuidados com as trocas.

Comece com três

Não tente guardar tudo de uma vez. Comece com três espécies autógamas, que quase não cruzam: feijão, que é só deixar a vagem secar no pé e debulhar; tomate, colhido bem maduro e fermentado; e alface, que você deixa florescer e colhe quando as plumas secam. Com elas, você aprende o ciclo inteiro sem se preocupar com cruzamentos. Depois, passe para uma alógama, como a abóbora ou o milho, plantando só uma variedade por vez e guardando semente de muitas plantas.

Três cartões. Feijão: autógamo, é só deixar a vagem secar no pé e debulhar. Tomate: autógamo, colha o fruto bem maduro e faça a fermentação. Alface: autógama, deixe florescer e colha as plumas secas.
Fáceis de manter puras, mesmo num quintal pequeno.

Renovar sempre

Semente guardada não dura para sempre. Mesmo bem conservada, a germinação vai caindo com os anos. Por isso, os guardiões plantam suas variedades com frequência, renovando o estoque antes que ele perca a força. Uma boa prática é guardar sempre mais do que precisa, dividindo em dois potes: um para plantar e outro de reserva, guardado em outro lugar ou com outra pessoa. Foi isso que os Krahô fizeram ao devolver sementes ao banco da Embrapa.

Trocar com cuidado

Trocar sementes é a melhor forma de aumentar a diversidade da sua roça. Nas feiras de trocas, leve sementes limpas, secas, com etiqueta e, se possível, com o resultado do teste de germinação. Conte a história da variedade e pergunte a história das que receber. Plante uma parte e observe por um ciclo antes de confiar inteiramente nela. E atenção com as sementes tratadas com veneno, que vêm coloridas nos pacotes comerciais: avise sempre na troca, e nunca as use para comer nem para dar aos animais.

Lembre também que, como você viu no capítulo 1, a lei permite que agricultores familiares, assentados e indígenas multipliquem, troquem e vendam sementes entre si sem registro. É um direito conquistado, e cada pessoa que guarda semente ajuda a mantê-lo vivo.

Da semente à roça

As sementes são o começo do próximo passo da trilha. No curso Uma roça diversa, você vai levar essas variedades para um pedaço maior de terra, com milho, feijão, abóbora e mandioca crescendo juntos. Cada semente que você guardar hoje pode virar a roça de amanhã.

Você sabia?

Segundo a Embrapa Agrobiologia, entre os guardiões entrevistados no norte fluminense, muitos guardavam as sementes junto com os resíduos da própria colheita, como palha, um costume antigo de proteção.

Na prática

Torne-se guardião ou guardiã de sementes:

  1. Escolha suas três primeiras sementes e plante nesta estação.
  2. Separe sementes em dois potes: um para plantar e outro de reserva.
  3. Leve uma semente com etiqueta e história para a próxima feira de trocas.

Fontes

  1. Garofolo, A. C.; Risso, I. A.; Barbosa, D. Conservação on farm de variedades crioulas em bancos familiares localizados em assentamentos rurais no estado do Rio de Janeiro. Embrapa Agrobiologia (Cadernos de Agroecologia), 2018.
  2. Nascimento, W. M. Produção de sementes de hortaliças para a agricultura familiar. Embrapa Hortaliças, Circular Técnica 35, 2005.

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Por que começar com feijão, tomate e alface?

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